O Manifesto pelo Senso Crítico

Lara Dias

Por Lara Dias

Formada em História pela PUC de São Paulo, tem sua pesquisa voltada para semiótica e educação. Já atuou em centros de memória, acervos documentais, escolas e bibliotecas.

O Manifesto pelo Senso Crítico


Em primeiro de maio de 1928 - quase um século atrás -, Oswald de Andrade publicava as seguintes linhas:

"Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz. Tupi, or not tupi that is the question. Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos. Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago."

É sempre importante resgatar momentos históricos como este, e com a exposição da Tarsila do Amaral no MASP, o documento torna-se mais significativo ainda.

Ao encararmos o Abapuru – quadro mais famoso da artista, que compõe a exposição -, com suas dimensões propositalmente desproporcionais, temos uma alusão ao brasileiro daqueles tempos: os pés imensos e cabeça minúscula espelham o trabalhador braçal, o homem da terra, impossibilitado intelectualmente por efeito de uma sociedade elitizada e desigual.

Tarsila presenteou Oswald com a tela, seu marido na época, e isso o inspirou a publicar seu Manifesto Antropofágico, cujo trecho lemos acima. Um manifesto que incentiva a assimilação do novo, sem preconceitos ou ressalvas, e que deixa subentendido como imprescindível a capacidade crítica do indivíduo.

Em sua definição semântica, antropofagia é o ato de comer carne humana - praticada em alguns rituais como forma de incorporar as qualidades do indivíduo que é comido -. De certa forma, é incorporar conhecimento, e mais do que isso, dar sentido. Metabolizar. Devolver de maneira sensata, ousada, criativa.... É abraçar a possibilidade de deixar um pouco de si.

Pode ser visto como um convite a reflexão sobre tudo o que nos cerca. Um convite a analisar, julgar, apreciar...ao invés de apenas reproduzir o que vem de fora.

Sugere, assim, um retorno às raízes nacionais, ainda que tais raízes sejam invisíveis aos olhos daqueles que foram silenciados por sua posição social – o homem pobre é sempre o mais colonizado.

Quando Oswald diz que a antropofagia nos une socialmente, fica a questão:

O quanto de brasil ainda tem em cada brasileiro?

 

 

 

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